UMA RODA, entre histórias

Partindo de uma recolha de relatos, crenças e cantigas realizada em territórios do Alto Minho pela Memória Imaterial CRL, este espetáculo propõe revisitar essa prática antiquíssima de contar histórias. Tem a forma de uma roda, um círculo de pessoas, na qual os contadores de histórias entretecem as suas narrativas, num diálogo informal entre si e o público. Um espetáculo que restaura assim um espaço ancestral de partilha de afetos, saberes e esperanças, de um património que, enraizado numa paisagem singular, fala dos laços que nos unem a todos.
O património oral recolhido nos concelhos de Melgaço, Monção, Paredes de Coura, Valença e Vila Nova de Cerveira, além de revisitado neste espetáculo, está registado em vídeo, num processo de criação de que resulta ainda um documentário.
Esta é uma coprodução entre o LU.GAR da Memória Imaterial CRL e a companhia de teatro Comédias do Minho.

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Vídeo: Comédias do Minho

Agenda das sessões

Melgaço
3 a 6 de Novembro
3 de Novembro – C. Cívico de Castro Laboreiro / 21h00
4 de Novembro – Casa da Cultura de Melgaço / 21h30
5 de Novembro – C. de Convívio de Penso / 21h00
6 de Novembro – J. de Freguesia de Paços / 16h00

Valença
10 a 13 de Novembro
10 de Novembro – Auditório de Verdoejo / 21h00
11 de Novembro – Auditório CILV (ESCE-IPVC) / 21h30
12 de Novembro – J. de Freguesia de Gandra / 21h00
13 de Novembro – J. de Freguesia de Fontoura / 16h00

Paredes de Coura
17 a 20 de Novembro
17 de Novembro – J. de Freguesia de Romarigães / 20h30
18 de Novembro – C. Cultural de Paredes de Coura / 21h30
19 de Novembro – J. de Freguesia de Formariz / 20h30
20 de Novembro – Escola Primária de Cunha / 16h00

Vila Nova de Cerveira
24 a 27 de Novembro
24 de Novembro – Salão Paroquial de Covas / 21h00
25 de Novembro – Cineteatro de V. N.ª de Cerveira / 21h30
26 de Novembro – J. de Freguesia de Nogueira / 21h00
27 de Novembro – Esc Primária de Candemil / 16h00

Monção
 8 a 11 de Dezembro
8 de Dezembro – C. Int. do Castro de S. Caetano / 21h00
9 de Dezembro – Cine Teatro João Verde / 21h30
10 de Dezembro – J. de Freguesia de Merufe / 21h00
11 de Dezembro – Salão Paroquial de Moreira / 16h00

Torres Vedras
14 a 18 de Dezembro
14 de Dezembro - J. de Freguesia em Maceira/ 14h30
15 de Dezembro -
Casa do Povo do Turcifal/ 14h30
16 de Dezembro - Casa do Povo do Ramalhal/ 14h30
17 de Dezembro - S. Paroquial S. Pedro da Cadeira/ 16h00
18 de Dezembro - C. de Cultura de Campelos
/ 16h00

Em busca da tradição oral no Alto Minho  
As fronteiras sempre foram espaços liminares onde identidades diferentes se cruzam e se nutrem mutuamente. O estremo Noroeste português e a raia espanhola de fala galega não são exceção, com a vantagem de o “estrangeiro” aqui ser o vizinho próximo, na língua e nos modos de sentir e viver o mundo, individualmente ou em comunidade.
Uma história já longa separou a Galiza e Portugal a partir de uma cultura unificada por volta dos sec. XII-XIII. No entanto, estes dois povos irmãos, muito por força da proximidade e das contingências da história, têm vindo a cruzar a fronteira natural que é o rio Minho bastas vezes séculos afora.
A breve recolha de testemunhos orais que no ano de 2022 esta equipa realizou nos concelhos de Melgaço, Monção, Paredes de Coura, Valença e Vila Nova de Cerveira, mostra bem que alguns habitantes desta zona raiana conservaram na memória quer lembranças de uma história comum com a Galiza, no contrabando por exemplo, mas também nas crenças e nas lendas cujos enredos e personagens se espelham nas águas do rio Minho. Neste caso, são de realçar as histórias de lobisomens e das procissões das almas (os acompanhamentos), bem como a profusão de histórias tidas como verídicas sobre as almas penadas de familiares ou amigos.

A moura e o leite de cabra
Angelina Fernandes
Castro Laboreiro – Melgaço 2022

Grosso modo, estes relatos fazem um retrato de um mundo pretérito onde o mundo rural e suas formas de vida estão sempre presentes: nos trabalhos coletivos, nas brincadeiras, nos namoros, nas desavenças. Este mundo onde a separação entre o dia e a noite é pronunciado, abre um portal para o mundo sobrenatural quando o sol desaparece no horizonte. As múltiplas narrativas que circulavam sobre criaturas fantásticas como a “coisa má”, as bruxas, os lobisomens, os aparecidos, etc. alimentam uma mentalidade religiosa profundamente crente, mas onde o catolicismo oficial deixa espaço a uma religiosidade popular que por vezes roça o paganismo.
Num mundo que parece abandonado a si próprio e a quem nele vive, a sobrevivência do indivíduo e da comunidade em que vive depende, muitas vezes, da entreajuda entre humanos e, principalmente, das crenças nas ajudas mágico-religiosas. Aqui se podem elencar as orações e responsos, quase todas a pedir proteção à divindade, e as rezas e benzeduras, por vezes acompanhadas de rituais e ervas medicinais, mas onde o lado da magia é bem visível. Quando a saúde, humana ou animal, periclita numa sociedade rural sem ajudas da medicina moderna, são estas as vias mais correntes para obter a cura dos males. Estas crenças e dependência dos curandeiros levam por vezes a burlas, que também são aqui denunciadas.

Também é plausível pensar que, numa sociedade fechada sobre si mesma, controlada pelas tradições das famílias e da igreja, onde todos se conhecem, os conflitos inevitáveis entre indivíduos ou grupos se transfiram para o plano simbólico, no qual um(a) vizinho(a) suspeito(a) pode rapidamente ser considerado(a) bruxa ou lobisomem. Entre as capacidades maléficas atribuídas aos inimigos da comunidade é de destacar a crença no mau-olhado, relacionado com a inveja. Da mesma forma que a sociedade dos vivos é próxima, a dos mortos também se mantém não muito longínqua, sendo possível o contacto entre vivos e mortos.
A vida dura nos campos, a lavoura com animais, a pastorícia, o longo ciclo da transformação do linho e a emigração deixaram, como muitos dos relatos indicam, uma marca indelével na memória coletiva destas comunidades, apenas amenizada pela lembrança dos momentos de lazer e entretenimento, os bailes, as partidas, os namoros e as saídas em grupo onde o canto tradicional estava quase sempre presente.

As feiticeiras
Armando Domingos, Maria Barreiros, Maria das Dores, Maria Glória (Lola)
Riba de Mouro - Monção 2022

Se o espaço é fechado sobre as aldeias e propriedades agro-pastoris que as circundam, o tempo também é circular e adaptado aos calendários agrícola e religioso. O ritmo diferenciado das tarefas específicas em cada uma das quatro estações do ano e as festividades cristãs que marcam os dias com nomes de santos e celebram a rigor a época natalícia, a Quaresma, a Páscoa (dando também lugar ao Carnaval e seus excessos), impregnam o modo de viver das comunidades. As tradições repetidas a cada ano tornam estas sociedades conservadoras, autossuficientes e sem grande apetência para a mudança. Só as recentes forças da modernidade, a luz elétrica, os transportes, etc. puderam transformar estas comunidades alterando os seus modos de vida a ponto de os levar à beira da extinção. Ficam, no entanto, as memórias do “tempo antigo” que também fazem parte da identidade coletiva e que aqui fica documentada uma pequena parte para as gerações futuras.

Paulo Jorge Correia


FICHA ARTÍSTICA

Direção artística: José Barbieri
Encenação: Luís Correia Carmelo
Narração: Cheila Pereira, Luís Filipe Silva, Rui Mendonça, Sara Costa
Participação especial: Ana Sofia Paiva, António Fontinha, Cristina Taquelim, Luís Correia Carmelo, Paula Carballeira
Formação: Ana Sofia Paiva
Recolha e registo: Memória Imaterial CRL
Documentário: João Gigante
Apoio científico e catalogação: Paulo Correia
Coprodução: Comédias do Minho e Memória Imaterial CRL

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